Marina Silva, amazônida, mulher e evangélica. Ela parece reunir todos os contras para uma carreira pública. Se fosse paulista, homem e ateu, provavelmente teria encontrado menos dificuldades na vida. No entanto, Marina tem angariado votos por razões além das credenciais de origem e profissão de fé. Cria de Chico Mendes, formada nos embates antidesmatamentos, sua trajetória lembra a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ambos saídos de um Brasil marginalizado. Ambos fizeram a opção de lutar pelos mais pobres. Ambos preferivelmente conciliadores. Por que Lula não a tomou como candidata, em vez de uma desconhecida Dilma Rousseff? Seria por que Marina não é alguém adequadamente manobrável? Galgando todos os degraus ascendentes na esfera pública (deputada, senadora e ministra), Marina Silva surge como candidata à presidência da República. Sua candidatura representa uma interessante coligação de ideias, mais do que de partidos, além de ser uma alternativa viável à bipolarização política entre PSDB e PT. Assim como o Lula de hoje, ela também parece acima de tensões partidárias. Por exemplo, ao votar em Marina, o eleitor que não compartilha de suas crenças religiosas a reconhece como um símbolo de uma ética política perdida. Ademais, alguns fatores que têm inibido seu maior crescimento nas pesquisas - o ambientalismo e o cristianismo - só são empecilhos quando não se conhece mais de perto as ideias de Marina. Pra começar, ela não é a Madre Teresa do Greenpeace. Embora sua plataforma política, o desenvolvimento sustentável, tenha ares de discurso único, isso é um mito. Esse foi o discurso que a levou a ser Ministra do Meio Ambiente. Como candidata, seu leque de propostas obviamente cresceu. Sua defesa do meio ambiente está mais para a reorganização produtiva do que para o fundamentalismo ecológico. O modelo de produção que advoga se contrapõe à sanha do desenvolvimento a qualquer custo, o que inclui uma mudança de mentalidade. Isso se reflete não apenas no uso dos recursos naturais, mas também se relaciona às cidades, como no seu comentário de que é mais necessário reduzir o tempo que os trabalhadores gastam dentro dos transportes do que reduzir o tempo de trabalho semanal. Enquanto José Serra e Dilma Rousseff ficam disputando quem vai fazer mais escolas técnicas, as propostas de Marina estão relacionadas à superação da baixa escolaridade dos brasileiros. Marina não tem apregoado algumas idéias progressistas do PV (Partido Verde), sua base partidária. Ela não encampou a defesa do aborto ou do casamento entre homossexuais. Mas ela não se furta a responder que são assuntos que carecem de maior aprofundamento de discussão e que não será um decreto presidencial que imporá sua vontade pessoal (nem contra nem a favor). Marina Silva não representa uma igreja. Nem representa princípios retrógrados. Aliás, sua fala ponderada ecoa valores acolhidos por grande parte dos brasileiros. Seu histórico quixotesco, misturando suas lutas por ideais alternativos com seu semblante de amazona de triste figura, tem atraído um eleitorado disposto a renovar conceitos pela força do argumento. Se ela consegue equilibrar essas tensões e aparentes contradições, só o tempo tem a resposta. Joêzer Mendonça |
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Marina Silva e a renovação dos argumentos
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