Fala Louzada: Serra perde para o bom momento do país

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Serra perde para o bom momento do país

Não é só Lula ou Dilma que atrapalham o tucano. O maior adversário do candidato do PSDB é o momento que o país vive. Por Leandro Mazzini



O folclore em torno de campanhas políticas de uma tão jovem democracia eleitoral – são apenas 24 anos desde a abertura – é demasiado rico a ponto de podermos cravar uma certeza diante de tantas especulações, sejam de especialistas ou do simples palpiteiro de bar: só as urnas comprovam as massas. Não que pesquisas sejam mal direcionadas ou, pelas pequenas amostras, passem longe da escolha popular. Elas servem para nortear discursos e indicar tendências. O fato é que um candidato se faz com o tempo. Ele confecciona sua imagem e consolida suas ideias a cada desafio, eleitoral ou administrativo. Assim pensa o tucano José Serra, pelo que já se viu de seu perfil nesta campanha. Mas então vem a pergunta inevitável relembrando a trajetória do candidato do PSDB: onde Serra errou, ou erra?
É um primeiro equívoco. Engana-se quem julga o momento como um conjunto de ações acertadas, ou desnorteadas. Os erros e acertos de uma campanha podem ser avaliados futuramente, em análise aprofundada. O dinamismo das campanhas, agora tão mais aceleradas no contexto da internet, TV, rádio, rua, palanque, eventos, discursos para todos os gostos e tribos, não permite avaliações instantâneas. Entra-se no jogo e dele só sai vencedor ou derrotado. Contam-se os mortos, feridos e heróis na hora do balanço. José Serra entrou no jogo ciente do risco que correria, que esta é a sua última chance de chegar ao Palácio do Planalto. Motivado pela ambição que sempre ocultou desde que perdeu em 2002, tornou-se um estrategista fechado em sua técnica. E, por isso, um centralizador, sim, ao contrário do que dita aos holofotes.
Serra nunca deixou de ser o candidato, contou-me certo dia o presidente do PSDB de São Paulo, deputado federal Mendes Thame. Explicava isso diante dos sinais emitidos das montanhas mineiras de que Aécio Neves o engoliria na disputa pela indicação. Serra manteve-se impassível como governador. Essa foi uma técnica. Elucidou-me isso o federal Stangarlini, também próximo do tucano, numa tarde no Congresso: Serra não poderia adiantar a disputa. Se se apresentasse à mídia como nome ao Planalto quando Aécio apareceu como pré-candidato, em meados de 2009, o governador paulista perderia o controle do estado que administrava, o controle do PSDB paulistano e se transformaria muito rapidamente em alvo do PT – como hoje. Essa foi a segunda técnica de Serra.
Deste modo, Serra perde para ele mesmo. Perde porque demorou a se lançar e a consolidar seu nome como candidato a presidente desde o início de 2009, como queriam os aliados do DEM, PPS e do PSDB. Este, sim, pode ser um equívoco eleitoral – e não erro político, é necessário distinguir. Ao passo que ele se preservou no poder paulista, perdeu espaço para o crescimento contínuo de Dilma Rousseff, que adentrava rincões como potencial nome petista à sucessão. Mas se Serra assistiu a tudo passivo, retardando seu projeto, teve um acerto administrativo: conseguiu entregar o governo de São Paulo sem crises internas, nem rachas no seu partido. E partiu para a briga. Tardiamente, mas partiu.
Serra perde para ele mesmo porque não consegue agregar aliados. Não conversa. E não sou eu quem diz. Ouço isso diariamente tanto de adversários, pela maldade verbal cabível à disputa, mas principalmente dos próprios aliados, que veem em Aécio Neves o grande diferencial da aglutinação ausente em Serra.
E por fim, Serra perde – segundo as pesquisas – principalmente por um fator inédito na História do país. A força popular de um presidente que vira um mito, com alta aprovação. Quando Hillary Clinton desistiu de disputar as prévias com Barack Obama, foi porque ouvira de seu maior guru: é difícil lutar contra um movimento. Ele falava de toda uma áurea que envolvia o senador adversário: o negro, o carisma, o projeto, a boa equipe e uma frase de efeito. Pode-se dizer que, no Brasil, com o cenário sóciopolítico e econômico sem estremecimentos de hoje, é difícil lutar contra um movimento: a continuidade do que está aí. No melhor dos bordões, o que se passa pela cabeça do povo é a metáfora que Lula ainda não disse no melhor de seu estilo: em time que ganha, não se mexe.
Serra perde, na verdade, para essa conjuntura socioeconômica. Não é só Lula ou Dilma que atrapalham o tucano. O maior adversário do candidato do PSDB é o momento que o país vive. Em suma, é o que Serra se pergunta todos os dias: como se apresentar como alternativa de poder para uma massa popular satisfeita com o país em que vive, independentemente de números e índices.
Nota do autor – Em política, a eloquente falácia é a melhor arma num coldre sem balas. No faroeste eleitoral há um vício imutável que pouco importa aos olhos da massa no tiroteio verbal: a ausência de um programa de governo. É isso o que derruba o discurso e o mandato dos candidatos. Sinceramente, não vejo programa convincente em nenhum deles.

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